O Canto da Floresta

Aldeia Huni Kuin Novo Segredo, Alto Rio Jordao, Acre-Amazzonia

Aldeia Huni Kuin Novo Segredo, Alto Rio Jordao, Acre-Amazzonia (Foto. @maurovillone)

Este artigo é a versão em português do que eu publiquei em italiano.

O século XVII foi para a Europa um período de transição e grandes mudanças, que levaram o mundo ocidental do Renascimento até a era do iluminismo. Um período também dramático, com eventos como a Guerra dos Trinta Anos, as últimas conseqüências da caça às bruxas após a Contrareforma, a abertura real da invasão das índias ocidentais, com as primeiras colônias no norte e no sul do novo continente. Mas também foi um período fundamental para o nascimento e desenvolvimento do novo método científico, baseado em observação, experimentação e abordagem analítica, previstas e praticadas por mentes como Copernicus, Descartes, Kepler, Galileo, que abriram o caminho para a próxima ciência newtoniana. O século XVIII então consagraria a supremacia da razão, com o advento do iluminismo e a sistematização do conhecimento.

Coisas maravilhosas. Mas as luzes da razão não impediram aos europeus, nos séculos seguintes, de continuar a colonizar, escravizar, explorar, destruir, dominar todo o planeta, em nome do desenvolvimento. A razão, justamente contrária à fé cega em dogmas arbitrários e uma multiplicidade de superstições, acabou por dividir-se com eles o poder sobre as mentes e, de fato, em uma surpreendente combinação de apoio mútuo, conseguindo justificar centenas de anos de horrores sem fim, como a escravidão, as revoluções, a repressão feroz, as guerras e os regimes totalitários, que vieram até hoje.

Enquanto isso, em nome do desenvolvimento, o homem conseguiu, no último século, entre outras coisas, criar uma tecnologia superior em relação a períodos anteriores, o que permitiu de viver, ao menos aparentemente, de maneira muito mais fácil no plano pratico. Prático, se for apenas para algumas partes da população, e aproveitando ferramentas extraordinárias como refrigerador, laptop, android, drones e o carro. Entre o final do século XX e o início do século XXI, vimos o triunfo da tecnologia, que até mesmo foi empurrada para a jurisdição biológica, com a genética, a robótica e as biotecnologias. Parece que o homem pode controlar e condicionar tudo.

Infelizmente, no entanto, as coisas não forom como se esperava. E a tecnologia triunfante não conseguiu prevenir mudanças climáticas, poluições fora do controle, o esgotamento de todos os tipos de recursos, da energia até alimentação. Mas, acima de tudo, não forneceu uma explicação sobre o significado da vida ou mesmo a sua origem, nem consegui explicar a origem do universo, e muito menos consegui fornecer luz aos seres humanos sobre como viver sua espiritualidade. Vivemos ainda na escuridão. Mas não só. A física quântica abriu abismos nas certezas de todos os séculos anteriores e até mesmo os mesmos cientistas, céticos no nível espiritual, reconhecem e declaram que a realidade e a matéria não são como elas aparecem.

Além das considerações filosóficas, em essência, o homem comum, bem como o cientista, os ricos como os pobres, não vivem tão bem na cultura ocidental. Porque as situações de conflito, manifestas ou não, tornaram-se insuportáveis, ou porque a situação financeira para muitos tornou-se insustentável, ou porque por muitas pessoas achar significado na vida é como procurar uma agulha em um palheiro, mas a substância é essa, ao contrário de algumas décadas atrás, não temos mais confiança na possibilidade de encontrar a felicidade apenas no nível material. Os jovens estão muito confusos e os adultos não passam melhor, digamos que estamos enfrentando uma crise epocal.

Enquanto isso, o mundo tecnológico continua a destruir tudo, como se nada tivesse acontecido. A Amazônia continua a ser desmatada, bem como outras áreas do planeta, e a bulimia energética, resultando em um aumento exponencial da poluição, parece não ter freios.

Tudo isso é acompanhado por uma espécie de revolução espiritual. Durante algumas décadas, um número crescente de indivíduos começarom a se fazer muitas perguntas sobre o significado da sua vida e há cada vez mais grupos e associações que estão procurando respostas ou, de forma mais modesta, até apenas a luz para encontrar uma direção e, por que não, uma felicidade mais profunda e verdadeira.

Ao mesmo tempo, tudo que é uma instituição certamente não abandona a fé na razão e na ideia idiota da “recuperação no consumo”.

Em todo o planeta, as últimas tragédias são consumidas e, em muitos lugares do mundo, os últimos paraísos são profundamente afetados pela ganância do sistema ocidental. A Amazônia é um desses lugares e lá estão ocorrendo, mesmo enquanto eu escrevo e outra pessoa lê essas linhas, massacres e genocídios contra os povos indígenas que viveram nessas terras há milhares de anos. Os nativos, alguns dos quais resistiram surpreendentemente a mais de quinhentos anos desde a primeira invasão européia, para o sistema ocidental são apenas um inconveniente irritante que simplesmente atrasa a possibilidade de explorar a terra, recursos de energia, alimentos e mineração.

O desmatamento esta progredindo mas, ao mesmo tempo, as populações ocidentais e indígenas entram em contato cada vez mais profundo entre elas. Há sete ou oito décadas, esses territórios e as suas culturas já estavam longe das maravilhas dos séculos anteriores, como explicava em seu livro “Tristes Tropicos”, nos anos ‘50, o grande antropólogo Levi Strauss, e hoje estão profundamente contaminados pela cultura ocidental, mesmo que ainda sejam extraordinariamente vitais. E os mais bem escolhidos entre os ocidentais, como os antropólogos, os viajantes e os intelectuais, se aproximaram desses mundos com as boas intenções de salvaguardá-los, ajudá-los, protegê-los. Em vez disso: Surpresa! Algumas populações que conseguiram, durante séculos, se retirarem no meio de uma floresta que ainda é parcialmente impenetrável, não só mantiveram os antigos costumes vivos, mas também conseguiram acessar mundos desconhecidos com uma tecnologia espiritual muito especial. São eles que podem ser uma ajuda para os ocidentais no nível espiritual.

A razão, na Europa, conseguiu chegar, quase um século atrás, conceber a existência de um aparelho imaterial do ser humano que eles chamavam de psique e investiga-la com técnicas chamadas psicanálise e psicologia analítica. Foi um grande passo que nos permitiu reavaliar a importância das emoções e dos sonhos durante muito tempo relegados aos mundos da superstição e da fantasia.

Algumas décadas depois, desde os anos 60, a beat generation, escritores como Kerouac, Castañeda, Ginsberg, cientistas como Hoffman, descobridor da molécula LSD, músicos e outros personagens abriram uma porta impensável: a multidimensionalidade da percepção. Mas foi apenas o começo.

Enquanto isso, no Brasil, onde, ao longo do século XX, continuavam se manifestar inumeros videntes e pessoas capazes de entrar em contato com os espíritos, uma figura surpreendente conhecida como Mestre Irineu, um pobre caboclo inteligente que viajava pelo país para encontrar trabalho ao longo dos anos vinte tinha acabado na Amazônia e tinha entrado em contato com grupos indígenas. Eles lhe deram uma bebida que consideravam sagrada permitindo o acesso a outros mundos onde podiam se encontrar espíritos, entidades, extraordinárias paisagens visuais e psíquicas. Eles a chamaram de Ayahuasca, cipò dos espiritos.

Mestre Irineu encontrou em uma ocasião um espírito feminino na floresta que começou a orientar seu crescimento espiritual. Mais tarde, fundou a Igreja do Santo Daime, uma mistura de crenças cristãs e práticas psíquicas indígenas, que cresceu até hoje se difundindo no mundo todo, incluindo a Europa. Mas não foi o único encontro do mundo ocidental com a medicina sagrada dos índios. Nas últimas décadas do século XX, viajantes, psicólogos e antropólogos, por suas vez, entraram em contato com Ayahuasca e entenderam que não era apenas um alucinógeno, mas uma substância natural que permitia entrar profundamente em contato consigo mesmo, para explorar o passado e o futuro, para ver a realidade a partir de milhares de posições diferentes, para ver coisas inconcebíveis que não correspondem ao mundo cotidiano. Mas, acima de tudo, com essa substância, podemos realmente curar, em particular doenças mentais, apegos de qualquer tipo, depressão, sensação de vazio e erradicação. Interessantes, a este respeito, os estudos de um grande psiquiatra tcheco, Stanislav Grof, que vem experimentando essa substância há décadas, com excelentes resultados.

Mas o ponto é realmente outro. Os nativos que, durante séculos, se retiraram na floresta, apesar dos ataques, massacres e escravidão feitos pelos brancos conseguiram não só manter costumes milenares cujas origens se perdem na noite dos tempos, mas também para viver em profunda harmonia consigo mesmo, com os outros e com o ambiente natural, mas há mais. Seu conhecimento da psique, das plantas, do ambiente é, de certa forma, extremamente superior ao dos acadêmicos ocidentais, por mais respeitável que seja. A razão está no fato de que os indivíduos das sociedades naturais não “observam” e não “analisam” a realidade, mas a vivem na sua própria pele, percebendo-a de maneiras diferentes, ligadas a paradigmas completamente diferentes daqueles dos ocidentais. Conhecer estes paradigmas  ira abrir um discurso hiperbólico, mas è suficiente pensar como simplesmente, apenas para fazer alguns exemplos, eles não concebem a posse de nada ou a ausência de um espírito para subtender qualquer elemento natural, para entender como você enfrenta uma visão do cosmo totalmente diferente da nossa, mas pelo menos igualmente consistente, uma vez que a vida deles é, sem dúvida, mais feliz daquela dos ocidentais urbanizados.

E aqui está a surpresa. Os pobres indígenas precisam sim de ajuda material e apoio para a proteção de seus direitos, mas pelo contrário, eles parecem ser de grande ajuda para os ocidentais. Nas últimas décadas isso já aconteceu e há muitos ocidentais que começaram a se beneficiar da ajuda espiritual dos nativos. Nos últimos quinze anos, grupos de pessoas reuniram-se para ter um intercâmbio material, cultural e espiritual com os nativos com grande benefício em ambos os lados.

Está acontecendo no Brasil, também no Peru, mas de maneiras diferentes em muitos outros países, no mundo todo.

A experiência brasileira é muito incisiva e trouxe muitos pesquisadores espirituais brasileiros e doutros paises em contato com indigenos do Acre, Amazônia, Pernambuco, Minas Gerais e outros estados. Em particular, no estado do Acre, na extrema parte sul da Amazônia brasileira, dois povos estabeleceram um vínculo privilegiado com o Ocidente. Os Huni Kuin e os Yawanawà.

Ambos conhecedores profundos de plantas tropicais que podem usar para inúmeras necessidades de cura. Mas é a abordagem no relacionamento com as plantas que é totalmente diferente do ocidental. Para eles, as plantas não são apenas plantas, mas a materialização dos espíritos sagrados que se devem respeitar e amar, e que pontualmente devolvem amor aos humanos. A figura complexa do xamã, aquele que trabalha com remédios e com as almas, fala, mas acima de tudo, canta para plantas, talvez durante uma noite inteira. Ele ama as plantas profundamente, nelas há tudo, como tudo também está no ser humano. A cura não é atacar um mal, mas restabelecer a harmonia com o amor. A planta cura se seu espírito amará o ser humano doente. E isso acontece tanto a nível físico quanto psíquico.

Entre essas plantas e misturas de plantas, há também a Ayahuasca, medicina sagrada. Uma mistura de duas plantas, um arbusto de folhas largas e um cipò  lenhoso e outros aditivos vegetais variáveis.

Ninguém é capaz de explicar como, há milênios e milênios, os habitantes das florestas conseguiram descobrir que duas plantas muito diferentes, misturadas e cozidas, poderiam produzir uma bebida com efeitos chocantes que abriram as portas da percepção em outro mundo, talvez muito maior do que de todos os dias. As duas plantas tomadas sozinhas não têm nenhum efeito. Os índios afirmam que a fórmula da mistura sagrada foi transmitida para eles, na noite dos tempos, pela Jiboia, a anaconda sagrada, que muitas vezes aparece em visões durante a jornada com a medicina.

Mas acima de tudo é interessante o uso que eles podem fazer com isso. Um veículo para harmonizar consigo mesmo, com os outros, com a vida e com o cosmo, mudando constantemente, em equilíbrio recíproco variável e móvel, enfrentando também sacrifícios e desafios e dando-lhes um profundo senso de felicidade e satisfação.

A ingestão da bebida é quase sempre cerimonial e nas cerimônias é de grande importância, juntamente com outros elementos como o fogo e a unidade do grupo, o som. É assim que os icaros, cantos sagrados cerimoniais que o Grande Espírito, diretamente ou através de outras entidades, transmitiu aos Pajés, os Xamãs, nasceram há milênios e milênios atrás.

Uma cerimônia de Ayahuasca é um ato de amor para si, outros, a floresta, o cosmo, não tem nada a ver com a religião, é espiritualidade natural, tem ainda menos a ver com “alucinações”. A meditação é fundamental, mas o ponto focal não é pedir algo, adorar um ícone, submeter-se a um ministro de culto, mas entrar em harmonia com o Todo. Essa harmonia é total, sem necessariamente prescindir das necessidades diárias, das maravilhas da tecnologia, ou de qualquer outra coisa, simplesmente leva a agir para se coordenar com o mundo, mas sempre com amor, o mais importante de tudo.

Mas é necessário falar sobre um tópico crucial. Por que os nativos tiveram a pior no choque com o mundo ocidental? É uma questão legítima que abre um discurso que talvez não tem fim e que alguns antropólogos também se tenham perguntado. As respostas podem, portanto, ser muitas, mas não se deve excluir que fosse necessário, de alguma forma, chegar à situação de hoje em que dois mundos substancialmente diferentes são comparados. Se o homem ocidental destrui completamente as sociedades naturais, mais cedo ou mais tarde ele se encontrará com nada na mão e pronto para ir para a destruição sem ninguem quem pudesse mostrar-lhe uma maneira de se conectar harmoniosamente com a natureza. Outra hipótese poderia ver uma colaboração frutuosa entre a razão e o espírito que poderia abrir cenários até agora inimagináveis. É interessante notar como a civilização tecnológica, após três mil anos de história, se reúne praticamente com a pré-história, ou pelo menos com algo erroneamente conhecido como “pré-história”, e provavelmente, em vez disso, uma “história” muito muito antiga e ainda muito pouco conhecida.

O encontro com os nativos não é a panacéia, mas um elemento crucial, essencial e estratégico. Não tem nada a ver com a competição entre religiões, que também contém elementos profundos e importantes, mas tem a ver com o desenvolvimento da consciência. Elementos de diferentes espiritualidades podem se integrar maravilhosamente. Tudo é Um.

Os Cantos dos Pajés são fundamentais para levar os participantes a uma cerimônia para paisagens divinas, onde é possível “ver” a propria vida. Os cantos dos Huni Kuin e Yawanawà, ambos grupos de grande musicalidade, são profundos e sobrenaturais. Aqueles dos estes últimos são talvez aqueles que se prestam a viver sua própria vida não necessariamente ligados a uma cerimônia. Ao mesmo tempo, uma performance fora do contexto de uma cerimônia ainda contém elementos de sacralidade e teria o propósito nobre de levar o grito, a música da floresta, a uma ampla audiência.

Esses povos são “Guardiões da Floresta”, como também é chamado o grupo que inclui jovens brasileiros e adultos que interagem com os nativos.

O canto da floresta è o grito do Grande Espírito que, como um vulcão em erupção, pressiona das profundezas da terra para entrar nos corações dos humanos. Chegou a hora de abrir o coração e voltar a ouvir para viver verdadeiramente o que de mítico e profundo ainda podemos encontrar em uma existência moderna.

Mauro Villone

 

Rispondi